A cartografia do horror: território, violência e desamparo em De gados e homens e Temporada de huracanes
Resumo
Este artigo propõe uma análise comparada dos romances De gados e homens (2013), da brasileira Ana Paula Maia, e Temporada de huracanes (2017), da mexicana Fernanda Melchor, a partir de uma perspectiva territorial inscrita nos Estudos Literários e nos debates sobre a latino-americanidade. Partindo do pressuposto de que a América Latina pode ser compreendida como um território supranacional imaginado (Anderson, 2008), marcado pela colonialidade do poder (Mignolo, 2005) e por processos de hibridização e des/reterritorialização (Canclini, 2008, 2016), investigamos como as narrativas constroem microcosmos ficcionais – o Vale dos Ruminantes e La Matosa – que condensam e dramatizam dinâmicas de poder, violência e desamparo características do continente. Apoiando-nos na conceptualização de Haesbaert (2020) sobre o território como vida, plural e corpo, argumentamos que as obras de Maia e Melchor operam como cartografias literárias críticas, expondo a brutalização da vida na periferia do capitalismo global, a persistência de lógicas coloniais internalizadas e a resistência dos corpos e comunidades em territórios de r-existência. A violência, nestas narrativas, não é um elemento espetacular, mas a matéria-prima da organização social e da própria constituição dos territórios representados.








