Dimensões psíquicas do poder em Mulher no Espelho, de Helena Parente Cunha
Resumo
Este artigo examina o romance Mulher no espelho (1985), de Helena Parente Cunha, com foco nas manifestações psíquicas do poder que se revelam nas personagens. Partindo da hipótese de que o poder não é apenas externo ou institucional, mas internalizado nas subjetividades por meio de processos de interpelação, o estudo considera o poder como uma força reiterativa que constitui os sujeitos na repetição performativa de normas sociais ligadas à cultura, patriarcado, religião e moral. Assim, o poder é incorporado ao psiquismo como estrutura reguladora de comportamentos e desejos, evidenciando conflitos entre obediência e resistência. Para embasar a análise, a teoria de Judith Butler (2017; 2022; 2023) sobre poder e interpelação é adotada como eixo central, complementada por Althusser (2022) e Foucault (2013). Esse estudo mobiliza, ainda, as contribuições de Homi K. Bhabha (1998) para aprofundar a compreensão dos processos de subjetivação, com ênfase nas noções de negociação e de entre-lugar, entendidas como espaços de articulação identitária nos quais os sujeitos se constituem de forma relacional, instável e atravessada por relações de poder. Ademais, a psicanálise de Freud (1997) e Lacan (1998) fornece instrumentos para compreender os mecanismos inconscientes que atravessam a constituição do sujeito, especialmente a noção lacaniana do “Estádio do Espelho”, que revela a cisão do sujeito e sua busca por uma completude inatingível. Derrida (1971, 2004) contribui com a desconstrução das categorias normativas e a interpretação do espelho como metáfora da subjetividade em différance, sempre incompleta e fragmentada. Como resultado da análise percebe-se que o romance, portanto, encena o processo ambivalente da sujeição, em que o poder que constitui os sujeitos também os limita, criando tensões internas entre submissão e subversão, num espaço psíquico de constante deslizamento em que poder e desejo se entrelaçam.








